segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Todo Dia Era Dia de Índio

Todo Dia Era Dia de Índio

Baby do Brasil

Composição: Jorge Ben

Curumim,chama Cunhatã
Que eu vou contar

Curumim,chama Cunhatã
Que eu vou contar

Todo dia era dia de índio
Todo dia era dia de índio

Curumim,Cunhatã
Cunhatã,Curumim

Antes que o homem aqui chegasse
Às Terras Brasileiras
Eram habitadas e amadas
Por mais de 3 milhões de índios
Proprietários felizes
Da Terra Brasilis

Pois todo dia era dia de índio
Todo dia era dia de índio

Mas agora eles só tem
O dia 19 de Abril

Mas agora eles só tem
O dia 19 de Abril

Amantes da natureza
Eles são incapazes
Com certeza
De maltratar uma fêmea
Ou de poluir o rio e o mar

Preservando o equilíbrio ecológico
Da terra,fauna e flora

Pois em sua glória,o índio
É o exemplo puro e perfeito
Próximo da harmonia
Da fraternidade e da alegria

Da alegria de viver!
Da alegria de viver!

E no entanto,hoje
O seu canto triste
É o lamento de uma raça que já foi muito feliz
Pois antigamente

Todo dia era dia de índio
Todo dia era dia de índio

Curumim,Cunhatã
Cunhatã,Curumim

Terêrê,oh yeah!
Terêreê,oh!

Fonte: http://letras.terra.com.br/baby-do-brasil/365271/

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=v5e2WLxerCQ


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Notas de um marciano - ROBERTO DaMATTA

Notas de um marciano - ROBERTO DaMATTA

Cheguei ontem à região tropical da Terra. Curiosamente, o planeta é recortado num conjunto do que eles chamam de países: agrupamentos com histórias ridiculamente parecidas, encapsulados por territórios vistos como autônomos, dotados de leis próprias e norteados por um dogma chamado de soberania. Diferentemente de nós que nos sabemos ligados a todos os seres vivos e a todo o universo, pois nele estamos e a ele retornamos depois dos nossos bem vividos 500 anos com vida sexual plena e ativa, eles têm uma aguda consciência do diferente. Embora vizinhos e separados por marcos arbitrários, eles vivem como se fossem estrangeiros. Estão convencidos que são compartimentos coletivos singulares, capazes de praticar e fazer o que quiserem, mas sabem que são parte de um conjunto maior, conforme é claro ao nosso olhar marcianamente distanciado.

O resultado desta concepção individualista é o constante confronto com o bem-estar geral e coletivo; e um conjunto de dualidades que tem sido a tônica de sua visão de mundo. Pois, para eles, tudo se reduz a oposições do tipo real/ideal, nós/eles, humanidade/animalidade, vida/morte, pobres/ricos...
quando — na verdade — sabemos que, quanto mais um lado engloba e recalca o outro, mais esse outro lado retorna assombrosamente fortalecido.

Engolfados nessas oposições, os terráqueos tudo pressentem, mas nada podem fazer porque não têm como desmontar o seu sistema e a si mesmos de um golpe. É possível que venham a liquidarse. De fato, os países que chamam de “mais adiantados” e que consideram superiores são os que mais poluem e destroem e, não obstante, são os que mais exportam o seu modelo de exploração do planeta. Mesmo agora, quando uma consciência planetária os atingiu, eles continuam imitando esse modelo que tem como base uma suposta ilimitada riqueza do que enganadoramente chamam de “natureza”.

Ademais, começam igualmente a descobrir que tudo tem relação com tudo, pois deles é uma coisa única e milagrosa: o seu planeta é vivo. Nele, conforme observamos há milênios com a nossa marciana inveja, tudo tem um ciclo e esses ciclos vitais se entrelaçam em circuitos complexos, de modo que há sempre um jogo milagroso e comovente entre a vida e a morte.
Ao chegar num país em forma de presunto, chamado Brasil, observo que estão em tempos eleitorais. Curioso que nem o presidente desta república tenta agir como árbitro, muito pelo contrário, sua visão é primariamente partidária, apaixonada e totalmente centrada no desejo de vencer a eleição a qualquer preço. O que ele aceita na vida (perder e ganhar) ele não aceita na Presidência. Li sua furiosa entrevista no meu computador telepático e fiquei estarrecido porque ele fala do papel dos jornais no Brasil, mas todo mundo sabe que ele próprio não lê. Pior: diz que tem azia quando lê algum jornal. Dei um giro pelo país e constatei que, mesmo tendo proclamado uma república em 1889, os brasileiros ainda não têm noção do que seja uma sociedade democrática.

Pois confundem individualismo com egoísmo, e egoísmo com altruísmo.
Assim, fazem suas falcatruas em nome do que chamam de “povo”; e mesmo tendo uma visão partidária exclusiva e um tanto fascistoide, a faceta pessoal de suas vidas — seus laços com parentes e amigos — está sempre pronta a vir à tona nas situações nas quais bens coletivos estejam em jogo.

Por isso, os brasileiros adoram “coisas públicas”, espaços públicos e, acima de tudo, dinheiro público, que para eles pode ser apropriado como se não fosse de ninguém. Como tiveram escravos até um ano antes de proclamarem a república, tudo o que é público é da elite política. O processo eleitoral mostra isso claramente, pois os candidatos não apresentam programas, mas rezam ladainhas e repetem fórmulas mágicas denominadas “promessas eleitorais”.

Meros engodos para que o candidato seja eleito. Na realidade, hoje em dia eles não têm representantes, mas mediadores — ou padrinhos. Candidatos cuja distinção (como a dos santos) é o acesso que teriam ao presidente, tomado como um Deus nesta terra cheia de papagaios da espécie galvão.
Quando estava de partida, assisti a um evento notável. Uma reunião de sua Corte Suprema discutindo um projeto de lei que existe em toda e qualquer sociedade civilizada. Trata-se de uma regra que impediria ladrões e corruptos de serem candidatos a cargos públicos e usarem a legislação nacional que lhes permite escapar de tudo em nome de imunidade política definida com má-fé.

Fiquei alarmado porque, mesmo diante da obviedade da causa, os magistrados se dividiram. Metade apoiava a lei; uma outra, arguia filigranas legais contra ela.

Discutiram por mais de dez horas. Não conseguiram decidir. Repetiram, reiteraram e reafirmaram o que foi chamado de “dilema brasileiro” por um tal de DaMatta, dos mais medíocres estudiosos locais. Aquela indecisão estrutural constitutiva do Brasil que até hoje o faz oscilar entre seguir o caminho da igualdade ou o da aristocracia e da desigualdade.
A via habitual que garante aos superiores não cumprir as leis. Devo ainda chamar atenção para...

[A essa altura, leitor, eu perdi a comunicação mediúnica com o espírito desse marciano. Sinto muito, mas aqui fico com a depressão e a indignação de um velho brasileiro


Fonte:

sábado, 4 de setembro de 2010

Mudança interior para mudar o mundo (Boaventura de Sousa Santos)


Boaventura de Sousa Santos:
Obrigado por me dar a oportunidade de fazê-lo, porque eu penso que estas transformações pelas quais nós lutamos, elas têm que passar por essa transformação interior. Eu costumo dizer que não faz nenhum sentido criarmos mapas emancipatórios se não tivermos viajantes que os vão ler, que os vão usar. E, exatamente, a subjetividade da modernidade pouco a pouco desinteressou-se da emancipação, porque a própria criação da subjetividade é inconformista, rebelde, digamos assim. Ela foi, de alguma maneira, através de muitos sistemas, desde a sociedade de consumo, do sistema educativo e outros grandes instrumentos da modernidade, esse inconformismo que passou pela banalização do horror e da violência que nós assistimos todos os dias nos próprios meios de comunicação social - ou "nos mídia", como dizeis aqui... É evidente que o que nós temos realmente, hoje, como grande tarefa, penso eu, é criar outra vez o inconformismo. É muito importante que não nos deixemos banalizar. Portanto, há um aspecto de pedagogia muito forte. Aliás, um dos atrativos de Fórum, e a razão por que ele produz esse encantamento, é porque ele é uma maciça manifestação de pedagogia, onde todos aprendem sem que ninguém ensine. E exatamente isso - que vem até da melhor tradição do Paulo Freire [(1921-1997), grande educador brasileiro, que se preocupava com uma educação conscientizadora e libertadora] - é uma pedagogia nova, é onde muitas pessoas... Por exemplo, até com uma pequena idéia simples - por exemplo, se nós, ao invés de construirmos um submarino, dedicássemos aquele dinheiro do submarino, quantas casas de habitação social poderíamos construir na América Latina? E as pessoas ficam absolutamente espantadas. É esta pedagogia, digamos assim, que tem que ser feita e essa, sim, que vai criar as tais subjetividades que se movem por causas e não por interesses. Veja que, mesmo quando se [...] todas as sociedades que lutaram pelas grandes transformações sociais... Houve realmente, por vezes, muita divisão de fracionalismo e etc. Por quê? Porque essas forças lutavam por causas e não apenas por interesses. A direita sempre se moveu por interesses e por isso é que é mais fácil ela pôr-se de acordo do que a esquerda, digamos assim. Ora, é no mundo dos princípios que nós hoje devemos pôr as nossas complacências. Sobretudo, por quê? Porque os princípios não têm fim, ou seja, são princípios que nós, durante muito tempo, na modernidade ocidental, pensamos que eram esses os únicos que existiam e esses eram os únicos valores; e, de fato, nos equivocamos completamente. Com base nesses princípios universais muita gente foi liqüidada, muitos dos povos indígenas foram liqüidados. Ora, hoje há, por um lado, um apelo a esses princípios, que são, no fundo, aqueles que podem mover a partir de dentro das pessoas, por ter que haver uma relação. E eu tenho discutido isso muito com militantes e com meu próprio trabalho dos direitos humanos: é que não basta ter uma teoria dos direitos humanos, ela tem que ser uma relação que começa aqui dentro do nosso corpo, para que a pessoa possa sujeitar-se aos riscos que normalmente essas lutas envolvem. Eu terminei recentemente um projeto na Colômbia e durante quatro anos estive a fazer esse projeto, pois entre cinco e dez - por não sabermos todos os casos - dos meus melhores amigos foram assassinados, eram lutadores ativistas dos direitos humanos. Portanto, a subjetividade tem que ser mudada a partir de dentro. Mas como é que se cria essa subjetividade? Não pode ser à imagem e semelhança do Ocidente. Porque, veja, porque nós, a idéia de pessoa... mesmo a Igreja, muitas vezes, deixou que a pessoa fosse absorvida e canibalizada pela idéia do individualismo. Não pode ser. E é até uma grande lição dos gandhianos [relacionados com as idéias do Mahatma Gandhi (1869-1948), idealizador do moderno Estado indiano e que pregou a pressão por mudanças políticas de formas não-violentas]:

a grande lição das culturas orientais é exatamente que a pessoa tem não só direitos, mas também deveres. Ela está em harmonia ou em desarmonia, não apenas consigo, mas com seus antepassados, com a sua família, com o cosmos e é essa visão que nos pode dar, digamos assim, um outro interesse no mundo. Porque só quando o que acontece no mundo, essa desigualdade social [de] que falava, for algo que nos diz respeito - porque nós somos também vítimas dessa desigualdade e não podemos ser parasitas dela -, só nesse momento é que nós podemos ter essa transformação. E daí que tem toda a razão e nós temos que encontrar formas de pedagogia onde se treine as subjetividades rebeldes, as subjetividades inconformistas. O Fórum é uma delas, muitas outras terão que ser criadas.